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Em torno do Mestre

Pedro de Camargo (Vinicius)




Atualizado: 18/09/2021

 

 
Em torno do Mestre – Pedro de Camargo (Vinicius)
 

21) A restauração do Inferno 
(Paródia a Tolstoi)


Satanás, o príncipe dos demônios, encarando o Nazareno, cujo corpo pendia do madeiro erguido no topo do Calvário, exclamou:
“Miserável! morreste, graças às insinuações que sugeri aos Pontífices e Fariseus, mas de que me serve este vão triunfo, se tua Doutrina já foi compreendida e assimilada por muitos que a praticam e propagam?

Maldição! meu reino está destruído para sempre. Vinguei-me, é certo, arrastando-te ao patíbulo da cruz, porém, que te importa isso, uma vez que estavas disposto ao sacrifício?”.

Balbuciando estas últimas apóstrofes em voz estentórica, Satanás encurvou as negras asas sobre o esguio arcabouço e desapareceu por entre larga fenda que se abriu no solo, qual suicida que se precipita na voragem de um abismo.

Caindo nas profundezas do inferno, ali permaneceu desacordado, num ambiente silencioso e tétrico onde as trevas da noite seriam sóis, se dado fosse penetrar a luz em semelhante antro, sede do reinado diabólico.

Um século, dois séculos, três séculos se passaram. Satanás permanecia imóvel, de chavelhos entre as garras, esforçando-se por esquecer o fato que lhe havia produzido a ruína; mas, mau grado seu, não pensava noutra coisa.
De repente, num dado momento, após largo ciclo de tempo decorrido, ouviu certo movimento em torno de si. Perscrutou atentamente e distinguiu o ruído sinistro de correntes que se arrastavam, a par de gemidos lancinantes, gritos, imprecações e ranger de dentes.

Ergueu-se, então, Satanás nas veludas patas mal acreditando no que ouvia. Agitou a cauda, distendeu as membranosas e luzidias asas, a fim de despertar completamente daquele longo torpor, e se pôs a escutar.

Era tudo real! O inferno mantinha o seu comércio em franca atividade. Tudo em movimento e vida nas tenebrosas masmorras de Belzebu. Satanás discorria consigo mesmo: Como conseguiram restabelecer o meu reino após a vitória do Crucificado, vitória que presenciei e cujos pormenores acompanhei até ao transe derradeiro?
Que teriam feito os meus sequazes?

Vejamos. Dito isto, soltou um silvo agudo e prolongado que repercutiu, sibilante, nas abóbadas infernais.  Incontinenti, abriu-se sobre o alto daquele subterrâneo um buraco que deixava ver labaredas vivas de um fogo rubro-azulado, precipitando-se por ali uma turbamulta de diabos de toda casta e feitio que se vieram grupar em torno de Satanás, come bando de urubus ao redor de um corpo em putrefação.

Dentre eles, havia um que se postou mesmo em frente ao Chefe das trevas, mostrando-se satisfeito em ter ocasião de relatar suas façanhas. Satanás, sequioso de notícias, não se fez esperar e, dirigindo-se a ele, travou o seguinte diálogo:
— Então o inferno foi restaurado? Que foi feito da Doutrina de Jesus Cristo? 

— Saiba, respeitável Chefe, que nosso reinado continua firme como outrora. Diariamente, abrem-se as portas do inferno para dar entrada a centenas de pecadores. 

— Zombas comigo. Então, depois da Doutrina do Cristo de Deus cujo nome tremo em pronunciar, ainda caem almas no inferno às centenas? 

— Pois é como digo os ensinamentos do Divino Mestre não nos incomodam, porque logramos destruí-los. 
— Mentes, cão infame. Àquela Doutrina é indestrutível. 

— Expressei-me mal, eminente Chefe. Queira perdoar-me. Nós conseguimos adulterá-la, introduzindo-lhe falsos conceitos. 

— Conta-me como foi isso. 

— Sim, adulteramo-la de tal maneira e com tanta astúcia e habilidade, que os homens adotam a nossa doutrina, supondo ser aquela que o Chefe tanto teme. 

— Estupendo! Como conseguiram semelhante proeza? 

— Aproveitamo-nos de certas circunstâncias, conforme passo a expor.  

Logo depois da destruição do nosso império, procuramos observar os homens que praticavam a temível Doutrina do Filho de Maria. Viviam felizes. Amavam-se uns aos outros, tinham as propriedades em comum.

Não havia, nem podia haver ciúmes, nem contendas, nem rivalidades entre eles. Pagavam o mal com o bem, perdoavam sempre. As pessoas que a eles se chegavam tornavam-se logo adeptas daquela Fé, tal a força viva da exemplificação.

Ora, em tais condições, eram inacessíveis às nossas influências, por mais esforços que empregássemos. Vi tudo perdido. Mas, as tais circunstâncias, a que antes me referi, vieram em nosso auxílio. Levantou-se entre eles uma ligeira divergência sobre meras questões de formalidades. 

Assim, diziam uns que a circuncisão era indispensável. Outros se reportavam às demais cerimônias de ritual judeu, opinando que não deviam desprezá-las de todo. Falavam sobre o jejum, as abluções, o batismo da água, a hóstia, etc.

Entramos, então, em ação, sugerindo a cada grupo que nada cedesse sobre seu modo de ver aquelas questões importantíssimas para a salvação das almas. O veneno foi-se infiltrando. O egoísmo e o orgulho começaram a despertar.

As discussões acaloravam-se. Deu-se o cisma. As figuras mais importantes e que se haviam distinguido nas controvérsias instituíram um forte partido, com sede em Roma, aliando-se ao poder civil e à força política do século. Criaram um tribunal de onde passaram a decretar os novos artigos de fé.

O povo tinha que aceitar as deliberações dos concílios reunidos em Roma. Uma onda de sangue inundou a Terra. Milhares de vítimas foram sacrificadas por se haverem insurgido contra os dogmas estatuídos. — Dogma? Que vem a ser esse termo, para mim desconhecido? 

— Dogma é um processo que inventamos e inspiramos aos membros do tal tribunal e que consiste em impor à razão e à consciência de outrem um absurdo qualquer, que convenha à nossa obra 

— Esplêndido! Continua a narrativa dos fatos; sem nada omitires. 

— Uma vez os acontecimentos no estado já exposto, nosso império ficou de novo estabelecido O inferno foi restaurado e a terrível doutrina desapareceu entre esses escombros de dogmas, formulas ritos e cerimônias que conseguimos inspirar aos homens, no momento em que, esquecidos da essência e da base do Cristianismo, se preocupavam com as aparências e formas exteriores.

Eis aí, valoroso Chefe, em ligeiros traços, a história da restauração dos nossos domínios. Satanás, cofiando a pera com as aguçadas garras, permaneceu por algum tempo perplexo, depois de ouvir a narrativa do seu dedicado súdito. Despertando daquela meditação, disse:

— Muito bem. Agiste com sabedoria: hei de gratificar-te como mereces. Neste tempo, saltam os demais demônios, pretendendo, cada um, fazer jus a propinas, pelos seus trabalhos particulares.

— Afastem-se, bradou Satanás, em voz imperativa; não sejam idiotas. Uma vez que a Doutrina do Crucificado foi desnaturada em suas bases e que os homens, por isso, não fazem um juízo real do objeto da vida, temos completo ganho de causa. Os feitos isolados carecem de importância. A base é tudo e a base foi desvirtuada.

Enquanto pudermos conservar esta situação, as portas do inferno não se fecharão. Esforcemo-nos, pois, pela estabilidade deste estado de coisas. Estou inteirado de tudo e declaro a Assembleia dissolvida. Cada um no seu posto: marchem. E um novo e prolongado silvo dissolveu o congresso diabólico.  

Em torno do Mestre

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