Sabedoria do Evangelho
Carlos Torres Pastorino

Atualizado: 05/09/2026
Obra: Sabedoria do Evangelho – vol. 8
Prof. Carlos Torres Pastorino
14 - VISITA A ANÁS
João ,18:13, 24, 14
13. E (o) conduziram primeiro a Anãs, pois era sogro de Caifás, que era sumo-sacerdote naquele ano. 24. Então Anãs o enviou algemado a Caifás, o sumo-sacerdote. 14. Era Caifás que aconselhara aos judeus que convinha um homem morrer pelo povo.
Expliquemos, inicialmente, porque introduzimos o versículo 24 entre o 13 e o 14.
Em primeiro lugar porque o exige a ordem dos acontecimentos, e depois por causa da crítica interna do próprio texto e dos códices.
Com efeito, os sinópticos nada dizem a respeito dessa visita feita a Anás, só relatada por João, que acompanhou Jesus passo a passo.
Mas não pode explicar-se que os vers. 15 a 23 de João se refiram a acontecimentos ocorridos na presença de Anás, já que, tendo dito e repetido que era Caifás o Sumo-Sacerdote daquele ano (vers. 13 e 24), não poderia chamar Anás de Sumo-Sacerdote, como está nos versículos 15, 16 e 22.
Houve, sim, uma confusão em Lucas (vol. 1) quando fala no mergulho de Jesus. Mas Lucas não era judeu nem vivia na Palestina, e pode ter feito confusão.
Mas, além de tudo isso, essa é a ordem encontrada no manuscrito da versão siríaca palestinense, no uncial 225 e aceita por Cirilo de Alexandria, além dos comentadores modernos Fillion, Calmès, Camerlynck, Lagrange, Durand, Lebreton, Jouon, Pirot (que diz:
Quando uma pequena correção resulta numa restituição tão coerente, não podemos dizê-la arbitrária, vol. 10, pág. 456), e por Max Zerwick, S.I. analysis Philologica Novi Testamenti Graeci, in loco (onde escreve: hic fortasse intermittendus est versiculus 24).
As versões vulgares trazem o vers. 24 em seu lugar, seguindo a ordem dada pelos papiros 60 e 66, pelos códices aleph, A, B, C, D, K, W, X, delta, theta, pi, psi pelos unciais 054 e outros: fam. 1, fam. 13 e 28, 33, 565, 700, 892, 1009, 1010, 1071, 1079, 1216, 1230, 1241, 1242, 1344, 1365, 1546, 1646, 2148, 2174, pelo Lecionário Bizantino pelas ítalas a, aur, b, c, f ff2, q, r, pela Vulgata, pelas versões siríacas peschitto e harcleense, pelas coptas saídica boaírica, achmimiana, pela gótica, armênia e geórgia.
Ora, já vimos que o arquétipo devia ter cinco versículos em cada folha, e verificamos que, entre o vers. 14 e 23 há, exatamente, 10 versículos. Temos então, que, ao chegar ao vers. 13, ele saltou o vers. seguinte no pé da página e virou a folha, continuando a copiar.
Ao chegar ao vers. 23, no pé da segunda página, notou o salto: voltou atrás e copiou o 24. Realmente, depois do vers. 13, temos uma pág. com 5 versículos (14 a 18) e outra página também com 5 versículos (19 a 23).
Como comprovação desses enganos, podemos descobrir testemunhos. A versão siríaca dá a seguinte ordem: 13-24-14-15; depois 19 a 23 (5 versículos de uma página), depois 16-17-18 e 25-26-27.
A versão siríaca palestinense traz a seguinte ordem: 13-24-14 a 23 (10 versículos) e depois repete o 24 (!) e continua do 25 em diante; a mesma ordem encontramos no mss. 1195. O mss. 225 apresenta a seguinte ordem: 13a-24-13b a 23 (10 versículos) repete o 24 (!) e continua do 25 em diante.
Está, pois, evidente, que houve desorganização na cópia do arquétipo, que permaneceu causando confusão em alguns manuscritos e versões. Embora as cópias dos códices, feitas desse mesmo arquétipo, tivessem procurado segui-lo fielmente, colocando o vers. 24 fora do lugar, onde o copista o pusera por engano.
* * *
Anás (cujo nome significa misericordioso) era uma das figuras mais influentes social e religiosamente em Jerusalém, e fora feito sumo-sacerdote por Quirínio no ano 6 ou 7 A.D; mas foi deposto no ano 15 por Valério Grato (FI. Jos, Ant. Jud. 18, 2, 2), embora tivesse conseguido com sua influência que cinco de seus filhos (Eleazar, Jônatas, Teófilo, Matias e Anás) e mais seu genro José Caifás (Fl. Jos. Ant Jud. 18, 9, 1) fossem elevados ao sumo-pontificado. Daí tê-lo classificado Flávio Josefo como um dos homens mais felizes de sua época.
O fato de terem levado Jesus à sua presença, antes de apresentá-lo a Caifás, demonstra o prestígio de que gozava: quiseram mostrar a consideração por sua idade e sua influência.
Anás, tendo olhado para Jesus, enviou-o imediatamente, tal como estava (algemado.) para Caifás.
João anota que fora Caifás que dissera aquela frase, de ser necessário que um morresse pelo povo (João, 11:50). Manteve o sumo-sacerdócio do ano 18 ao 36 (FI. Jos. Ant. Jud. 2, 2, 2 e 2, 2, 43).
João fala no pátio que era o terceiro elemento das casas helênicas da época. À entrada, na via pública, (ho pylôn), seguia-se o vestíbulo (tó proaúlion), após o qual vinha o pátio (hê aulê), geralmente circundado por um pórtico de colunatas, em redor do qual se abriam as salas do pavimento térreo.
Na passagem do pylôn, que João chama porta (thyra), é que Pedro ficara retido por não ser conhecido.
Sabedoria do Evangelho
Click no link abaixo, para ver o livro
| LIVRO EM ESTUDO | SABEDORIA DO EVANGELHO (VOL. 7) - PASTORINO |
Mais Informações